O aparelhamento do estado brasileiro pelo bolsonarismo

Edição Justificando/Reprodução

Praticando aquilo que critica (ou pelo menos criticava), o anti-presidente Jair Bolsonaro tem intervido em diversos órgãos federais para esvaziar investigações sobre membros da família. Um exemplo é a tentativa de mudança no comando da Polícia Federal no Rio de Janeiro, estado onde o filho, Flávio, é investigado pela prática de Caixa 2.

Em atenção aos pedidos dos ruralistas – uma das bases de apoio ao ‘governo’ – Bolsonaro também vem desmontando a estrutura de fiscalização ambiental, estrangulando o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que podem ficar sem verba para trabalhar até o fim do ano.

O saldo até agora: servidor que multou o Presidente por pesca ilegal exonerado, Presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) demitido por divulgar dados oficiais de queimadas e desmatamento, o conhecido “dia do fogo”, inflamado por declarações irresponsáveis contra indígenas e ONGs de preservação ambiental que atuam na região da floresta amazônica e, não menos escandaloso, o Ministério do Meio Ambiente ainda divulgou a informação de que vai punir fiscais que aplicarem multas consideradas “inconsistentes”. Os critérios para considerar uma multa “inconsistente” ainda é desconhecido.

O presidente, que está afastado das funções devido a uma cirurgia no intestino, já afirmou publicamente à imprensa que ‘monitora todos os grandes grupos’, em clara alusão a utilização da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para neutralizar e seguir os passos de seus desafetos.

Diante da flagrante utilização da máquina pública para acompanhar supostos opositores no Sínodo da Amazônia, Jair Bolsonaro, mais uma vez, tentou justificar. “Tem muita influência política lá sim”, disse, como se a investigação ilegal que autorizou não fosse. Bolsonaro se referiu ao encontro anual de bispos que acontece este mês em Roma, capital da Itália.

Encontro de bispos em Roma/Reprodução site Nossa Política

Encontro de bispos em Roma/Reprodução site Nossa PolíticaEm resposta na época, o Planalto disse que a Igreja Católica não foi objeto de qualquer tipo de ação por parte da Abin. “A Abin acompanha cenários que possam comprometer a segurança da sociedade e do estado brasileiro”, disse um trecho da nota.

Segundo apurou o jornal Estado de São Paulo, em matéria publicada no último dia 31 de agosto, a cúpula do regime bolsonarista acredita que a igreja católica tem ‘avançado em temas considerados de esquerda’. O Planalto citou a situação dos povos indígenas, mudanças climáticas e o desmatamento como principais “ameaças”.

Tensões com Receita, COAF e Polícia Federal

A tentativa de Bolsonaro de intervir em órgãos federais de controle já recebeu respostas. Só nos últimos dez dias, houve um ‘ensaio’ de renúncia coletiva que partiu da direção da PF e da Receita. Técnicos também disseram que podem interromper serviços como a emissão do Cadastro Nacional da Pessoa Física (CPF) e a restituição de imposto de renda caso o o Presidente insista.

“Isso nos preocupa muito porque nunca existiu esse tipo de ingerência, pelo menos na história recente”, disse Marcos Camargo, Presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, em entrevista ao jornal O Globo.  Para ele, a PF é um órgão “de Estado, e não de governo”, e portanto, “não deve sofrer intromissão política”.

Tânia Prado, que preside o Sindicato de Policiais Federais em São Paulo, falou que Receita, Coaf e PF integram um sistema nacional de integridade, essenciais para o não cometimento de desvios. “Quando esses órgãos são mexidos pelo governo, ficam sujeitos a ingerências de todo tipo”, diz.

Crítico de Maduro – classificado como ‘ditador’ pelo capitão – , o Presidente Jair Bolsonaro parece não perceber a semelhança das práticas que adota das que antecederam a tirania no país vizinho. Neutralizar órgãos de investigação e utilizar do estado para obter informações de interesse privado não faz parte da democracia. A atitude, portanto, deve ser repudiada, sob pena de graves prejuízos ao povo brasileiro.

Escrito por:

Osmam Martins tem 23 anos, é jornalista e assessor de comunicação.

Twitter: @omarttins_

A coluna de política nacional, assinada pelo jornalista Osmam Martins, não reflete a opinião do veículo, tampouco de colaboradores e outros colunistas do blog.

 

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